25 de novembro de 2009

Tratado dos seres normais


Não gargalhemos muito.
O mundo é o duro trabalho
Dos homens sérios, sisudos,
Que invariavelmente dormem
Enquanto teimamos em rir.

Cuidemos para que a nossa dança
Não perturbe a andança
Apressada dos transeuntes
Que não se podem deter,
Precisam urgentemente ir.

Não cantemos a plenos pulmões.
Precisamos ouvir aviões
Que carregam a nossa valia,
Precisamos ouvir os canhões
Que expandem as nossas fronteiras
E guardam a nossa paz.
Precisamos ouvir corações?

Não brindemos o dia
Se hoje é apenas via
De construção do amanhã.

Não sejamos crianças
De tudo transformar em risos.
Certifiquemo-nos diariamente
De que não temos bastante
E de que, nesse mesmo instante,
Alguém tem sempre algo mais
(inda que dois ou três sisos).

Sufoquemo-nos um pouco
Agora e continuamente.
Façamos o suficiente
Aos seres normais.